domingo, abril 12, 2009

Talitá cumi!

"Mas Jesus, sem acudir a tais palavras, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente.” [...] Tomando-a pela mão, disse: Talitá cumi! Que quer dizer: Menina, eu te mando, levanta-te!” Marcos 5: 36-41
Estava Jesus junto ao mar, quando veio um homem a ele, um dos principais da sinagoga, chamado Jairo, e ao vê-lo, prostrou-se aos seus pés, suplicando-lhe para que Jesus fosse com ele e impusesse suas mãos sobre sua filhinha para que ela vivesse. Aquele homem não pensou na sua posição social, nem na vergonha de se prostrar daquela forma a Jesus diante de toda a multidão. Ele não calculou o que pensariam dele nem se ele seria expulso da sinagoga. Simplesmente procurou Jesus com coração quebrantado e se prostrou pedindo a cura para sua filha.
A atitude daquele homem nos mostra o que é a verdadeira coragem diante de Deus: é realmente se prostrar a Jesus e pedir, até mesmo implorar, a cura. Pessoalmente, eu sempre tive dificuldade para pedir o que quer que fosse às pessoas e, principalmente, a Deus. Na minha trajetória em Cristo, foi duro quebrar meu orgulho e me prostrar diante de Deus e pedir ajuda a Jesus. Mas quando finalmente me prostrei diante Dele, arrependendo-me do meu pecado de orgulho e pude finalmente sentir o amor de Jesus na minha vida.
Na mesma passagem deste homem, que se prostra a Jesus, vemos um outro caso de cura, a cura de uma mulher que buscou Jesus com toda a fé que pôde ter naquele momento. Esta mulher vinha sofrendo de uma hemorragia há 12 anos. Já tinha gasto todos os seus bens com médicos e nada nem ninguém pôde curá-la. Na época da lei, uma mulher que padecesse de hemorragia era considerada imunda. Ninguém se aproximaria dela, pelo contrário, ela seria rejeitada ao máximo por todos. Aquela mulher devia sofrer muito física e emocionalmente; todos os seus planos e sonhos devem ter sido destruídos pela doença que estragava sua vida já há 12 anos. No entanto, aquela mulher somente em ouvir falar de Jesus, foi procurá-lo, tendo a coragem de passar por toda a multidão em volta dele, para simplesmente lhe tocar a veste, pois dizia “Se eu apenas lhe tocar as vestes ficarei curada”. E assim foi, ela tocou Jesus e foi curada, não por que o tocou, mas por que teve fé total nele. Jesus, então, fez com que ela se apresentasse diante da multidão, não para humilhá-la, mas para que ela soubesse que a fé dela a salvara e que dali em diante ela estava livre e em paz.
Vendo esta passagem, arrependo-me de não ter me aproximado antes para pedir a cura a Jesus da minha tristeza. Desde sempre, desde criança, desde que me entendo por gente, sou muito triste. Ao conhecer Jesus, a tristeza cedeu espaço a uma pequena alegria, e eu digo pequena, porque ainda não era constante; e se esta alegria não é ainda constante é porque eu ainda não havia tido a atitude de me prostrar a Jesus para pedir a cura, para pedir “Vem, Senhor, impõe as mãos sobre mim e serei salva, e viverei”.
Por isto, vendo novamente que Jesus é o Senhor, que venceu até mesmo a morte, que pode trazer os mortos e oprimidos pelo pecado de volta à vida, peço nesta Páscoa para que Jesus imponha as mãos sobre mim e me cure da tristeza que ainda tenho, pois eu quero sim ser curada e quero sim a alegria transbordante de Jesus.
Quero que Jesus me tome pela mão e me diga: “Menina, eu te mando, levanta-te” e eu me levantarei sim para ser testemunha das obras do meu Senhor.
Oro para que Jesus vivifique meu coração nesta páscoa e neste ano.
Em uma palavra: Crê somente e levanta-te.

quinta-feira, abril 09, 2009

A Cruz



“Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Mat. 27; 46

No mundo de hoje, muitas pessoas parecem vitoriosas. Bill Gates, por exemplo, tem muito dinheiro. Outros têm uma técnica toda especial para jogar futebol, como o Ronaldinho. Outros estão na crista da onda, em todas as capas de revistas, como Gisele Bündchen. Mas ser vitorioso mesmo não é nada disso. Ser vitorioso é crer em Jesus. Poderíamos pensar que Cristo morreu na cruz por causa da traição de Judas, por causa da inveja dos líderes judeus, ou da covardia de Pilatos ou ainda por causa da crueldade dos soldados romanos. Mas não foi por nada disso.

Na verdade, Deus deu gratuitamente ao mundo o Seu Filho unigênito, Jesus Cristo, para que qualquer pessoa que crer em Cristo encontre a vida eterna e o amor perfeito de Deus, em uma palavra, a salvação. Isto sim é vitória! Cristo pagou na cruz todo o salário do nosso pecado. O pecado é realmente muito sério e grave e nos dá a sensação de derrota, porque ele cria uma barreira dolorosa entre nós e Deus. Mas Cristo aniquilou esta barreira pelo seu sangue derramado na cruz!

Após Jesus ter sido apresentado a Pilatos, o governador do império romano, e duramente açoitado, os soldados o levaram para o pretório. Com certeza, bastaria o açoitamento para que um homem frágil e fraco morresse. Naquela época, os judeus eram açoitados o dobro de vezes de outros presos, pois era uma forma de se ensinar ao povo a obediência ao império. Os açoites tinham pedaços de osso e o objetivo disto era que o açoitado sofresse mais, pois cada golpe tirava um pedaço da sua pele. Após o duro açoitamento, Jesus foi entregue aos soldados.
Logo a seguir, os soldados do governador, levando Jesus para o pretório, reuniram em torno dele toda a coorte. 28 Despojando-o das vestes, cobriram-no com um manto escarlate; 29 tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça e, na mão direita, um caniço; e, ajoelhando-se diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, rei dos judeus! 30 E, cuspindo nele, tomaram o caniço e davam-lhe com ele na cabeça.” (S. Mateus 27:28-30)


Não bastasse todo o sofrimento do açoitamento, a zombaria dos soldados era cruel, realmente desumana. O profeta Isaías narra que Jesus não abriu a boca, como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda diante dos seus tosquiadores. Você já viram a mudez e a mansidão de uma ovelha diante dos tosquiadores? Ela é colocada diante deles, calada e mansa, e os tosquiadores, cheios de tesouras ou instrumentos elétricos de corte, começam a cortar e a arrancar toda a lã da ovelha que, espantosamente, não reage e não tenta se defender. Da mesma forma, Jesus não se defendeu dos insultos e das agressões dos soldados, mas agüentou tudo isso calado para consumar sua vitória na cruz.


"Depois de o terem escarnecido, despiram-lhe o manto e o vestiram com as suas próprias vestes. Em seguida, o levaram para ser crucificado.” (v. 31)

Jesus começava assim a caminhada, passo a passo, rumo à crucificação...


E, chegando a um lugar chamado Gólgota, que significa Lugar da Caveira, deram-lhe a beber vinho com fel; mas ele, provando-o, não o quis beber.” (v. 34)




Chegando à Gólgota, foi oferecido a Jesus, momentos antes da crucificação, vinho com fel. Sabem por que vinho com fel? A crucificação era na época a forma mais cruel de se matar um prisioneiro; o crucificado ia perdendo pouco a pouco todo o sangue do seu corpo. O sangue é a vida da carne; isto significa que o crucificado ia perdendo sua vida de pouco em pouco. Assim, o vinho com fel servia como uma espécie de anestésico para aliviar um pouco o sofrimento físico da crucificação. Mas Jesus, ao provar a bebida, não a quis, pois não queria aliviar absolutamente nada de toda a dor pela qual iria passar para nos salvar. Em seguida, Jesus foi crucificado; suas mãos e seus pés foram traspassados pelos grandes pregos que deviam sustentar o peso do seu corpo sobre o madeiro. Para entendermos a que ponto a morte de cruz era uma maldição naquela época e como Cristo a aceitou, para nos salvar, vejamos o que diz em Gálatas 3:13

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro)”

Mas Cristo, para nos livrar de toda a maldição que era para nós, fez-se Ele próprio maldição no nosso lugar; ele tomou nosso lugar para nos salvar... pelo seu sacrifício na cruz.



Jesus, sendo o Rei e Senhor, foi crucificado no meio de dois ladrões. Por quê? Isaías 53 nos diz que Cristo

“Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”

Cristo foi realmente contado com os transgressores, mas “levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu.”

A hora sexta quer dizer meio-dia, houve trevas sobre a terra até três horas da tarde. O dia fugiu daquela cruz que estava carregando o peso do pecado do mundo todo. No nascimento do Filho de Deus, houve luz. Foi a luz da glória do Senhor, que brilhou sobre os pastores que guardavam o rebanho na vigília da noite. Na morte do Messias Salvador, houve trevas, trevas ao meio dia. Houve trevas porque Cristo foi separado, ainda que momentaneamente, ele foi separado do Deus Pai, para suportar até os últimos instantes o pecado de todos os homens. No meio da solidão mais profunda, separado do Deus Pai, Cristo clamou: “Eli, Eli, lamá sabactâni?”,

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Cristo, sendo perfeito e sem pecado, sofreu a dor de não estar em comunhão com o Pai, para carregar o pecado da humanidade. Ele sofreu naquele momento o horror das grandes trevas na alma, os sofrimentos terríveis da solidão e do abandono que todo homem, separado de Deus pelo pecado, sofre. Cristo, perfeito, sem pecado, expressão exata do Ser de Deus, Rei dos reis e Senhor dos senhores, não abriu mão de nenhuma parcela do nosso sofrimento humano, para se tornar o nosso Salvador, perfeito e completo!
Cristo consumou sua missão divina de salvar o mundo e os pecadores. No momento de sua morte, Cristo entregou serenamente o espírito ao Pai. Isto surpreendeu até mesmo o centurião romano e os guardas que estavam com ele a ponto de dizerem; “Verdadeiramente este era o Filho de Deus”. Na hora da morte, a maioria dos homens morre tristemente com derrota e frustração. Com certeza aquele centurião e aqueles homens estavam acostumados a presenciar a perturbação e o tormento dos homens na hora da morte, mas Cristo morreu tão vitoriosamente, porque ele morreu com a glória de quem cumpriu toda a missão que o Pai havia lhe confiado. Lc 23:46 nos mostra que Jesus simplesmente disse: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” e expirou.


Minha história aos pés da cruz de Cristo

Eu sou Liliane, pesquisadora em crítica genética, estudiosa dos manuscritos, da escritura e dos processos de criação na obra de grande autor francês Marcel Proust. Eu sempre conheci a história da cruz de Cristo devido à minha formação religiosa, cristã, que recebi desde o ventre de minha mãe. No entanto, eu não via nenhuma relação entre o sacrifício de Jesus e a minha vida, então eu era incapaz de me enxergar diante da cruz de Cristo.
Quando eu pensava sobre a minha vida, achava que era só uma sucessão de tristeza. Um tipo de filme muito dramático, que eu não sabia se terminaria bem. Eu fui criada sem a presença do meu pai. Parece comum nos nossos dias, mas crescer sem uma das partes, ou pai, ou mãe, ou os dois, deixa marcas profundas, que só Cristo pode curar.
Eu me considerava uma vítima da vida e tinha uma espécie de raiva de Deus. Exatamente como a bíblia diz, eu tinha inimizade contra Deus. Eu pensava sempre em suicídio, porque não conseguia suportar aquela sensação de abandono, de desamparo, de achar que eu tinha de fazer tudo sozinha se quisesse mudar de vida. Eu já pensava que não tinha um pai de carne e osso para me ajudar, não ter também um Deus justo era demais pra mim, era insuportável.
Eu diria que, em resumo, eu tinha a alma cheia de trevas. Minha esperança mais concreta era lutar pela sobrevivência usando minha própria força e meu grande orgulho como escudos. Eu queria falar várias línguas, formar-me na USP e fazer mestrado. Consegui, mas o preço emocional foi alto e chega a ser um paradoxo: como uma pessoa pode lutar pela sobrevivência com a alma cheia de morte? Eu era assim, em resumo, sem esperança e diante de uma vida cinza.

Porém, Jesus, sabendo detalhadamente quem eu sou, as melhores e as piores coisas do meu ser, chamou-me como filha, filhinha. Colocou-se em lugar do meu Pai carnal, e conduzindo a menina perdida que eu sempre fui me ensinou e me fez conhecer seu sacrifício na cruz por mim. Com muita luta, e em meio ao mar de lágrimas que era a minha vida, Deus foi quebrando a grande pedra que era o meu coração para que eu pudesse ouvir Sua palavra.

Muitas outras mudanças aconteceram e estão acontecendo ainda em mim, mas eu posso dizer que: eu não tinha esperança, nem paz. Agora, posso respirar e sentir Cristo no meu interior, acalmando meu coração. Posso olhar para o futuro e imaginar que viverei grandes maravilhas do Senhor, muitas coisas vão acontecer ainda e eu ainda vou aprender muito mais de Cristo.

É uma benção divina quando nosso sofrimento se torna compreensão e compaixão. O desespero e a angústia que eu vivi me permitem compreender o que vai no coração e no silêncio das pessoas... é o que dizem aqueles que se aproximam de mim. No entanto, eles não sabem que a minha história só se tornou uma benção porque ela cruzou o caminho da cruz de Cristo, como o Simão de Cirene, que cruzou o caminho de Cristo e sentiu o peso da cruz para poder começar uma nova história. Se o meu caminho não tivesse nunca passado pela cruz de Cristo, continuaria a ser uma ferida aberta que ninguém quer mostrar. Como Isaías disse, Cristo carregou sobre si as nossas dores e enfermidades. As minhas também estavam lá sobre o corpo de Cristo, desconjuntado e dilacerado na cruz. Eu venci! Pela misericórdia de Deus e pelo sacrifício de Cristo, eu estou aqui!
Agradeço ao Senhor, que me chamou das trevas para me dar a nova vida vitoriosa pelo sangue de Jesus derramado na cruz.
Em conclusão, a cruz de Cristo nos dá a salvação, a verdadeira direção da vida e a vitória verdadeira. A cruz de Cristo nos dá um novo e vivo caminho em direção ao Pai e ao reino dos céus. Oro para que cada um que por aqui passar possa ganhar essa vitória, aceitando pessoalmente o sacrifício de Jesus na cruz, com arrependimento sincero diante de Cristo. Pois, em Cristo, somos mais que vencedores!

sexta-feira, abril 03, 2009

Ana, uma mulher da oração


“levantou-se Ana, e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou
abundantemente.” - I Samuel 1:10



Ana, a mãe de Samuel - um grande profeta de Deus, usado pelo Senhor desde a sua infância e fruto da oração de sua mãe atendida pelo senhor. Samuel foi o homem de Deus que ungiu os primeiros reis de Israel, Saul, quando Israel nem era ainda um reino, e posteriormente Davi, o grande rei de Israel abençoado pelo Senhor. Mas acho que eu devo começar pelo começo, falando de Ana, quando Samuel ainda nem existia.

Ana era mulher de Elcana, um homem que tinha duas mulheres. Além de Ana, possuía Penina como esposa. O problema começava aí. Penina tinha filhos; Ana, porém, não os tinha. De ano em ano, Elcana subia da sua cidade para adorar e sacrificar ao Senhor dos Exércitos, em Siló. No dia em que Elcana oferecia o seu sacrifício, dava ele porções deste a Penina, sua mulher, e a todos os seus filhos e filhas. A Ana, porém, ele dava porção dupla, porque era a ela que ele amava mais, mesmo que o Senhor a houvesse deixado estéril. Vendo isto, Penina se roía de inveja e provocava e irritava excessivamente Ana, pois via nisso uma grande chance de humilhá-la e de se vingar por Ana ser a mulher mais amada. Assim, provavelmente Penina tinha prazer em dizer a Ana algo como “Pois é, ele te dá porção dupla porque você não pode nem ter filhos, né? Não é toda mulher que tem a sorte de ter um monte de filhos como eu. Ainda bem que a descendência do meu marido já está garantida, né?”
E assim era de ano em ano; e, todas as vezes que Ana subia à Casa do Senhor, a outra a irritava; pelo que Ana chorava e não comia. Então, Elcana, seu marido, lhe dizia: Ana, por que choras? E por que não comes? E por que estás de coração triste? Não te sou eu melhor do que dez filhos? Entretanto, todo o amor e consolo humano de Elcana não podiam consolar Ana. Talvez só uma mulher possa imaginar a dor e a aflição de Ana diante dos insultos e agressões da sua rival. Mesmo sem nenhum insulto, certamente ela já sofreria bastante, pelo fato de não poder gerar nem um único filho sequer. Não podendo mais suportar sua própria dor, sua tribulação e sua ansiedade, que estavam matando-na, Ana levantou-se no templo e, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou aos soluços todo o choro que ela tinha engolido por anos, por não saber como podia resolver seu problema. Derramando sua alma na oração, decidiu fazer um voto e disse: Senhor dos exércitos, se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passará navalha.
Foi assim que Ana apresentou sua petição ao Senhor, apresentando-se ela mesma como serva, serva aflita que pedia para ser lembrada, durante uma longa oração. Como Ana estava demorando muito naquela oração, o sacerdote Eli passou a observar-lhe o movimento dos lábios, pois Ana falava só no coração, seus lábios se moviam, mas não se lhe ouvia voz nenhuma. Por isto, Eli pensou que Ana estava embriagada e lhe disse: Até quando estarás tu embriagada? Aparta de ti este vinho! Mas Ana logo lhe respondeu: Não, senhor meu! Eu sou mulher atribulada de espírito; não bebi nem vinho nem bebida forte; porém venho derramando a minha alma perante o Senhor.
A embriaguez de Ana não era de jeito nenhum de vinho, mas sim de dor, de ansiedade e de aflição. Tudo isto, ela estava naquele momento derramando aos pés do Senhor. Assim, o sacerdote Eli entendeu que aquela oração era a mais profunda que ele já tinha presenciado até ali e comovido com a fé de Ana, abençoou-a, dizendo-lhe “Vai-te em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste.” Assim, Ana se foi e o seu semblante já não era triste. A paz do Senhor havia entrado no seu coração e ela pôde, pela primeira vez em tantos anos, sentir alegria serena e a certeza de que o Senhor ouviu sua oração detalhadamente.
Nove meses depois, Ana deu à luz um filho, a quem chamou Samuel, pois dizia: Do Senhor o pedi. Samuel era o fruto da oração de Ana, concedido pela grande misericórdia do Senhor. Podemos pensar que a alegria de Ana era tão grande e tão intensa, que ela poderia se esquecer de sua promessa de entregá-lo a Deus, mas ela não se esqueceu. Havendo-o desmamado, levou-o consigo, com um novilho de três anos, um efa de farinha e um odre de vinho, e apresentou seu menininho, ainda muito bebê, junto com todas as ofertas ao Senhor. Assim, Ana o apresentou ao sacerdote Eli, explicando-lhe “Ah! Meu Senhor, tão certo como vives, eu sou aquela mulher que aqui esteve contigo, orando ao Senhor. Por este menino orava eu; e o Senhor me concedeu a petição que eu lhe fizera. Pelo que também o trago como devolvido ao Senhor, por todos os dias que viver; pois do Senhor o pedi.”
Ao ver como Ana cumpriu prontamente seu voto com o Senhor, entregando seu próprio filho, podemos achar que ela deve ter tido grande peso no coração, chorando por entregá-lo como oferta na casa de Deus. Entretanto, sua reação não foi de tristeza, mas sim a de erguer um sincero cântico de agradecimento ao Senhor, dizendo: O meu coração se regozija no Senhor, a minha força está exaltada no Senhor; a minha boca se ri dos meus inimigos, porquanto me alegro na tua salvação. Não há santo como o Senhor; porque não há outro além de ti; e Rocha não há, nenhuma, como o nosso Deus. Sem dúvida, Ana experimentou assim a convicção do Senhor, a certeza de que o Deus Todo-Poderoso prestava sim atenção nela, a misericórdia do Deus vivo que ela tanto buscou quando pediu que o Senhor dos exércitos atentasse benignamente para sua serva.
O Senhor foi a força de Ana, a alegria e a Rocha da salvação daquela mulher que um dia havia se humilhado aos pés do Senhor, derramando toda sua dor e fazendo a petição do seu maior sonho, gerar um filho. Deus se agradou tanto da fidelidade de Ana, que concedeu a ela ainda muitos outros filhos, três meninos e duas meninas. E o jovem Samuel cresceu diante do Senhor, sendo usado desde muito menino por Deus. Sendo ainda muito jovem, Samuel foi usado como profeta do Senhor, para dar direção a Israel e exortar o povo ao arrependimento. E assim o foi até sua velhice e morte.
Vendo a fé de Ana, posso ter alguma idéia de como ela venceu pela oração. Seu problema não era pequeno e não estava ao seu alcance resolvê-lo. Ele vinha se prolongando há tempos e Ana só pôde resolvê-lo quando derramou sua emoção aos pés do Senhor.

Durante os anos da faculdade até razoavelmente pouco tempo, eu achava que podia resolver todos os problemas com a força do meu braço. O instinto de sobrevivência e o meu orgulho próprio eram o que me fazia crescer diante dos homens. Não havia espaço sincero para Deus no meu coração, nem na minha vida. Não me esforçava para meditar meu Cristo, pois estava acostumada a viver como um robô para trabalhar, ganhar dinheiro e aumentar meu ego diante dos homens. O resultado desses anos todos vividos deste jeito é uma tristeza em mim com raízes profundas, que volta às vezes sob a forma de cansaço, como uma ferida mal curada. Por isto, sinto limite emocional e qualquer pequena coisa pode me fazer chorar, como simplesmente ouvir falar de contas para pagar.

Meditando na história de Ana, observei que essa heroína movida à oração disse ao sacerdote Eli “venho derramando minha alma perante o Senhor”; esta foi a explicação que ela deu por sua longa e sincera oração. Quando ela voltou com Samuel nos braços, disse ao sacerdote “Por este menino orava eu” e entregou-o com o coração cheio de júbilo pelo Senhor, e não com sentimento de perda. E este júbilo, este coração constante, ela manteve, realmente o sustentou não esquecendo a misericórdia do Senhor e assim pode até gerar o segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto filho.
Se eu olho para mim, não vejo este coração constante como o de Ana, porque não aprendi ainda a derramar minha alma em oração ao Senhor. Aprendi a trabalhar e acumular funções como se minha fidelidade fosse fazer sempre o maior número possível de atividades. Como se trabalhasse para Deus como trabalho para um chefe. No caso dos chefes da terra, eles recompensam os funcionários que dão mais produção, pouco importa onde ou como estão os seus corações. Sem querer, eu estava freqüentemente fazendo o mesmo para Deus, economizando meu coração, pela ignorância espiritual de quem não sabe se derramar porque se acostumou a se manter em pé por teimosia.

No entanto, vendo minha ignorância espiritual, Deus não me jogou fora, nem me puniu. Pelo contrário, o Senhor esperou pacientemente que eu chegasse ao ponto de sentir a necessidade de aprofundar minha oração e minha relação com Ele, meditando quem é o meu Cristo. E na sua grande misericórdia, Deus foi me abençoando sempre, ainda que eu não estivesse no nível de perceber sua mão de poder sobre minha vida. Se revejo minha história, lembro-me de que vim de uma família modesta, em que as pessoas mal sabem ler ou escrever. O Senhor me elevou a ter estudo, falar algumas línguas, ter profissão e sucesso profissional.

Conhecia o evangelho, porém não amava a Jesus. Minha alma por muitas vezes grita, chora e se desespera. Por que? Pois o Espírito Santo de Deus que se move em mim me mostra que eu cheguei no tempo da oração. Ler a palavra bíblica como quem come miojo ou orar como quem escova os dentes não é mais suficiente, porque preciso agora derramar minha alma, despejando toda a paixão que o Senhor me deu o dom de ter dentro de mim. Deus me fez ver quem eu sou, não sou uma super mulher, só uma mulher necessitada da atenção de Deus.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

"Solidão"




Olhar o telefone, ansioso por um chamado, e ele permanecer mudo. Ouvir uma música e não ter ninguém com quem associá-la. Querer dormir muito, para não ter a consciência de que está só. Não Ter ninguém com quem brindar um acontecimento. Sentir frio e não ter um braço para aquecê-lo. Falar alto em casa, para ter a sensação de estar ouvindo algum ser humano. Ter apenas um prato na mesa, ás refeições. Não ter alguém para lhe abotoar o vestido ou lhe ajeitar a gravata. Sair de madrugada, tentando encontrar algum conhecido para poder desabafar. Perceber que não tem um ombro para chorar. Ler o jornal, durante as refeições, por não ter com quem conversar. Verificar que a correspondência se resume a contas e extratos bancários. Nunca ter a quem dizer bom dia, ao acordar. Não ter quem lhe faça um chá, quando está indisposto. Não ter possibilidade de dividir o mesmo desodorante ou a mesma pasta de dentes. Não ter alguém que lhe impeça o suicídio.

E você? Quando se sente realmente só? O isolamento é diferente da solidão. É o momento que se escolhe para estar consigo mesmo, Em paz e harmonia. É uma busca interior, um movimento voluntário, uma virtude desenvolvida. A solidão começa quando nos trancamos para o amor.


Texto retirado do Livro "AMAR PODE DAR CERTO"

quinta-feira, janeiro 24, 2008

"A Imitação da Rosa"



Sempre achei que cada ser humano fosse produto exclusivo no mercado da humanidade, mas após uma leitura não tanto prazerosa, descobri que somos meras imitações.
Seguimos modelos semi-prontos, que moldamos dentro de nossas limitações e os expomos ao mundo como se fossem a mais pura expressão da originalidade.
Somos sempre a "a imitação da rosa". Por que? Será por que não imitamos outro objeto. Resposta: tem algo mais perfeito que um botão de rosa en fleur? Imitamos o que achamos belo e seguimos esse modelo de forma a sacralizá-lo.
E pior, não fazemos isso em busca do belo, mas em busca da aprovação de outro imitador que nos observa, nos examina e nos julga - o outro.
Passamos pela vida querendo ser exemplos de filhos, modelos perfeitos de adolescentes rebeldes ou bem comportados (isso vai depender da galera de "imitantes" que você segue), exemplos de pais, exemplo de profissional etc.
Ufa!!! Sempre exemplos, sempre modelos. Quem não quer ser um ídolo? adorado? aprovado?
Ainda você que contraria todas as normas - você pensa que é original, que é você mesmo? NÃO!!! Lamento, mas não passa de mais um imitante da classe que busca o "erro" como filosofia de vida. É mais uma imitação, porém imita as minorias.
Ainda que você radicalize tudo e tente ser diferente ao máximo, você sempre estará em busca da sua rosa.... Ah! essa rosa que nos escapa entre os dedos e que passamos uma vida em busca... a rosa da auto-afirmação.
E, o que seria não ser "a imitação da rosa"?
Verdadeiramente não sei, quanto mais penso em ser eu mesma mais me vejo envolta em algum cliché... nada parece único, original... parece que tudo já foi inventado, experimentado... e tudo que eu tentar ser vai parecer mais uma imitação transmutada, porém não original.
Talvez se aceitarmos que vivemos em meio a tantos clichés e nos deixarmos passear em meio a eles, sem julgá-los, como fazem os moralistas, mas aproveitando um pedacinho que nos agrada de cada detalhe da vida, seremos diferentes. Ao menos seremos mais felizes, gozaremos mais da vida, pois essa busca chata em se encaixar em alguma rosa ou julgar àquelas que não achamos dignas de imitação, parece mais um sadomasoquismo, porém sem prazer, apenas dor.